Capítulo #3 – Minha Liberdade
Enquanto Melony abria os olhos, senti meu batimento cardíaco aumentar de leve e minhas mãos se fecharam, arranhando minhas pernas.
Era como se a pequena bolinha verde estivesse se enraizando aos poucos, enquanto seus pequenos olhinhos começavam a se abrir. Quando vi, tentei sorrir ao máximo, primeira impressão é muito importante.
Como uma criança que acaba de acordar, ela abriu os olhos sonolentos e piscou algumas vezes.
_Hmmm... Huh?
Ela olhou para minha cara como se estivesse vendo um alienígena.
_Ah! A garota idiota do outro dia! Você de novo?
“Lá vamos nós de novo...”
_Espera um pouco, o que está acontecendo aqui? Cadê aquele velho miserável?
E então ela viu alguma coisa e parou de se mexer.
Suei frio.
Os olhos dela vagaram lentamente até chegar ao seu corpo novo, e...
_KYAAAAAAAAAAAAAAAAA!
O QUÊ QUE É ISSO?
Ela girou em torno do corpo várias vezes, inconformada. E ficando cada vez mais maluca.
_Corpo rosa? Focinho? Orelhas gigantes? Mas o que...
De repente, ela entendeu que se tratava de um bichinho de pelúcia. E uma aura negra cobriu sua cabeça, que girou len-ta-men-te até olhar alguma coisa em suas costas. Então ela virou a cabeça len-ta-men-te de novo para mim.
_Você... Foi você que me colocou nessa coisa repugnante e cheia de ácaros? Se tivesse alguma coisa redonda e felpuda na minha bunda VOCÊ IA MORRER!
Quando vi, ela estava a meio palmo da minha cara.
_R-Repugnante? Que coisa cruel de se dizer Melony-chan...
_Chan? Não me chame por chan!
Depois que o grito dela foi e voltou do planeta, eu esfreguei minhas orelhas.
_Tá, tá... Não te chamo mais por chan, Me-lo-ny!
Mas ela estava longe de se acalmar, e fazia perguntas sem parar, às vezes parecia que as perguntas nem eram para mim, mas ela não parou de falar por um bom tempo, sempre gritando, e rodando de um lado para outro, e puxando as novas orelhas, inconformadíssima.
Eu estava meio sem saber o que falar afinal ela nem mesmo esperava eu respirar para fazer novas reclamações e perguntas, mas eu sorria, tentando manter a calma.
Melony devia estar ainda mais confusa e desnorteada que eu, então eu podia fazer o mínimo para ajudá-la.
_Melony, é melhor que você leia essa carta que o Sebastian te deixou...
Ela tomou a folha da minha mão, e leu rapidamente:
Melony,
Tente não ser um incômodo para a Kouji-san entendeu?
A partir de agora você esta sendo designada para servi-la como sua kaizoukonpaku.
Você sabe quais são as suas funções. Não me decepcione está me entendendo?
E seja educada com ela, ela é a sua nova dona agora. E é uma boa pessoa.
Estarei por perto caso haja alguma coisa. Não tente nada estúpido!
Sebastian Julius
Ps.: Espero que goste do seu novo corpinho! Ahahaha!
Melony amassou a carta com tanta força que achei que quebraria os próprios dedos, se o bichinho de pelúcia tivesse um.
_Sebastian... Seu... Maldito...
***
Amassei o papel com tanta raiva que teria quebrado meus dedos se estivesse na minha gigai, deixei os pequenos braços daquela coisa rosa cair, sem jogar o papel fora. Minha cabeça abaixou um pouco.
Então pensei com raiva que eu deveria estar triste.
Sebastian e eu passamos tantos anos juntos e agora ele simplesmente me passava para aquela garota idiota. Eu estava me sentindo péssima.
_Melony... – A garota sussurrou, ao me ver abaixar a cabeça. Meus ombros tremeram com a raiva enquanto eu pensava nas mil e uma maneiras de me vingar daquele velho pervertido.
_Ah! Melony-chan! Não chore!
_Não me chame de chan! Você é idiota? Eu tenho o dobro da sua vidinha medíocre para chorar!
_Quase o dobro... – Brincou ela, rindo.
Com minha cabeça ainda abaixada, eu continuava com raiva.
_Por quê?... Por que eu tenho que obedecer a você? O que te faz pensar que eu vou te obedecer?
A garota me olhou confusa como se não tivesse entendido minha pergunta. Mas não disse nada.
_Eu odeio vocês! Odeio todos vocês humanos! Têm uma vida livre e a jogam fora, mas ainda tem tempo de não me deixar ter a minha!
Virei o rosto de pelúcia, com raiva, para não ter que olhar para ela.
Vários segundos se passaram até que ela olhou uma fotografia no alto de uma estante da sala.
_Livre...? Será mesmo?...
Olhei para ela, surpresa.
Ela continuava olhando a fotografia, então se levantou, foi até a estante, pegou o porta-retrato e o abraçou, de costas para mim.
_Se eu fosse realmente livre... Poderia vê-lo de novo... – ela sussurrou.
Permaneci encarando-a, sem entender. Ela continuou:
_Humanos não são... Livres, Melony. Ao contrário, somos as criaturas que mais ficam aprisionadas. Estamos presos à vida, ao destino, às nossas próprias atitudes. Uma vez que nosso destino tenha sido traçado, só um milagre nos faria escapar dele. Começamos a morrer no instante em que nascemos... E às vezes morremos antes mesmo de morrer. – continuei sem entender e ela explicou – Quando alguém precioso para você morre, é como se uma parte de você também morresse. E somos obrigados a passar o resto de nossas vidas assim. Têm feridas que o tempo não cura, só cicatriza. E somos obrigados a carregar essas cicatrizes até o último dia de nossas vidas. – ela colocou o porta-retrato de volta na estante com cuidado e olhou para a janela, onde nuvens começavam a tampar o brilho da lua. – Mas nem sempre nossas obrigações são tão ruins assim. Um acontecimento ruim pode gerar um bom, quando você menos espera. – Olhou para mim e sorriu – Naquele dia... Você me salvou... E se eu não tivesse sobrevivido teria perdido todas as oportunidades de ver esses bons acontecimentos, como conhecer você, Melony. Teria morrido triste, e talvez tivesse decepcionado meu irmão.
Eu não tinha salvado ela, tinha me livrado do meu peso de não poder salvá-la.
_Bem, você não tem necessariamente que me obedecer. Eu preciso de você e você pode me ajudar...
“Essa é boa...”
_Sebastian me contou que você odeia se sentir presa a qualquer coisa. Eu... Não sei como lidar com kaizoukonpakus, e você é a primeira que eu tenho – e sorriu – Mas quero que sejamos sinceras uma com a outra. Eu não quero deixar você livre sempre que quiser.
Depois de arquear as sobrancelhas, perguntei:
_O que quer dizer?
_Hm... Bom... Você vivia sempre sozinha no laboratório não é? Aqui vai poder ficar no meu apartamento todo, vamos morar juntas...
“Nossa que interessante...” ¬¬
_... E você pode usar sua gigai sempre que quiser, isso é, quando não estiver cuidando do meu corpo, e...
“Ah... Isso é tããão interessante...” “¬¬
_... Podemos sair juntas algumas vezes se quiser...
“...”
_... E aposto que você vai amar a super doceria que tem aqui pertinho. ^-^
Sempre passo lá depois da aula.
_Doceria?
_Sim... – ela me olhou com uma cara estranha – Não me diga que você nunca comeu doces? Meu Deus! Você só pode ser uma santa! Eu jamais viveria sem doces! – e correu até a cozinha, abriu o armário e voltou com a mão cheia de pacotes coloridos. – São todos deliciosos! – parou um segundo para pensar – Acho que você só pode comer enquanto está na gigai não é?
Então ela se aproximou de mim, a mão perto daquele bicho asqueroso em que ela me colocara. Afastei-me.
_Não toque em mim! ¬¬
_Ei, ei, tudo bem, eu só vou te passar para sua gigai e tenho certeza que você não vai se arrepender.
Ela sorriu enquanto estendia a mão, que agora era gigante, comparada à minha, para se apoderar de mim.
_Não me toquee!! – gritei correndo e me escondendo atrás do sofá.
Ela deu uma risada.
_Tudo bem então. Vou deixá-los aqui em cima da mesa para quando você quiser. Sua gigai está no meu quarto.
Não me mexi. Ela viu que eu a encarava com uma cara não muito amigável, mas mesmo assim sorriu. Que raiva.
De repente, senti uma reiatsu tão forte que senti arrepios. A garota também sentiu.
_O- O que é i... – ela começou a pergunta quando um celular em cima da mesa tocou, vibrando.
Ela atendeu.
_Alô?
_Kouji-san! Saia daí agora!
Eu conhecia aquela voz...
_O – O que? Não estou entendendo! Quem está falando? O que está acontecendo?
_Não tenho tempo pra explicar, só saia daí lo...
Antes que a voz pudesse terminar a frase, a parede da cozinha foi aberta num soco de uma mão gigantesca.
Nós duas nos viramos e vimos, aterrorizadas, um hollow gigantesco aparecer e gritar aquele grito ensurdecedor que todos hollows fazem.
O celular se afastou da orelha dela enquanto ela olhava paralisada para o monstro, talvez pensando no que fazer. Não era de se admirar que não soubesse. Eu jamais vira um hollow daquele tamanho na minha vida, e aquilo não parecia ser um hollow comum.
Corri rapidamente para o quarto enquanto o hollow olhava pela cozinha, procurando alguém.
Não foi difícil achar a gigai no quarto pequeno e em dois segundos eu já estava na gigai, me sentindo muito melhor depois de sair daquela coisa rosa.
Quando voltei, a garota tinha largado o celular e estava na forma de shinigami.
Então o hollow nos encontrou. Um cero veio arrasando a cozinha até na sala, e nos alcançaria se eu não tivesse pulado a janela e a garota tivesse passado pela parede até a rua.
A alguns metros de distancia, ela se volta para o apartamento, apontando sua espada para lá.
O hollow apareceu instantes depois. Ela já ia atacá-lo quando a voz do telefone reapareceu:
_Kouji-san, PARE! - Olhamos para trás e vimos Sebastian correndo em nossa direção a toda velocidade. – Esse não é um hollow comum! Você ainda não tem força suficiente para derrotá-lo sozinha ainda!
_O que? Por que? – Ela perguntou.
Um novo cero veio em nossa direção, e conseguiu rasgar parte do kimono dela, quando ela tentou escapar.
_Ele é rápido!
O hollow desapareceu num sonido e apareceu na frente dela, e já ia desferir um novo soco quando Sebastian apareceu na frente dela, levantando as mãos:
_Hadou #31 – Shakkahou!!
Uma esfera vermelha gigante apareceu e quase acertou o hollow, que desapareceu num outro sonido.
Enquanto isso, Sebastian se vira para a garota e pergunta:
_Kouji-san! Está ferida?
_N-Não! Mas o que era aquilo?
_Aquilo... É um arrancar modificado geneticamente. – disse ele, se virando para frente, esperando um novo ataque.
_Arrancar?
_Sim. Tenho meus hollows de pesquisas. Sempre os modifico dessa vez consegui algum sucesso na transformação dele, mas houve um problema.
_Ah! Fala sério! Eu mal vi um hollow comum e já tenho que lutar contra um arrancar modificado geneticamen...
O arrancar apareceu por trás da garota com o punho pronto para um novo soco, mas Sebastian foi mais rápido, embora não tão rápido. Levou o soco, e foi parar a metros de distancia.
_Sebastian-san! – ela gritou.
O monstro se aproveitou da guarda baixa e segurou-a com as mão gigante, apertando-a com força.
_D - Droga!... Me... Solta! – falou ela, enquanto era esmagada entre os dedos enormes e erguida para o alto.
Ela não conseguia se mexer e quando foi pega, sua espada caíra no chão.
Sebastian tentou se levantar, mas parecia ter quebrado alguma coisa, e caiu ao tentar se levantar. Vendo que era inútil persistir, ele olhou para cima, seus olhos procurando alguma coisa.
Eu estava parada no céu, sem fazer nada e a uns bons metros de distancia, olhando tudo sem um pingo de vontade de me mexer dali.
_Melony! O que pensa que está fazendo? – perguntou ele ao me ver de braços cruzados – Ataque ele!
Não me mexi um centímetro sequer.
_O que está esperando? Ande logo!
O monstro apertou ainda mais a garota estúpida, e ela tossiu, perdendo o ar e tentando em vão escapar dele.
_Melony!! – Sebastian gritou, já nervoso.
Mas continuei sem me mexer. Olhei para Sebastian por cima e fria, perguntei:
_E se eu não quiser?
Bastou alguns segundos para que seus olhos perplexos assimilassem minha ameaça e se enxerem de raiva.
_Agora não é hora de você dar seus chiliques Melony! Seja rápida e ataque logo essa coisa!
Continuei sem me mexer.
_Quer saber de uma coisa, Sebastian?... Eu estivesse esperando por isso. Uma... Chance.
-Ele olhou para mim, e eu já não sabia se ele estava mais perplexo ou mais furioso, mas eu continuei, com um desprezo sarcástico, sem me importar com o seu olhar - O que vai acontecer se eu salvá-la? Vou ficar mais algumas décadas presa a ela e depois que ela morrer, mais algumas décadas com outro humano idiota. Foi mal, mas eu estou a fim de servir de babá de humanos. – Minha voz ficou mais grave e eu falei mais alto, minha raiva se atenuando - Essa humana idiota só me quer porque sirvo pras necessidades dela! E você! – apontei para Sebastian - Você é igual a todos eles! Usam-nos e depois nos descartam!Quando eu não mais servir, vou ser descartada e jogada fora como qualquer lixo que vocês têm? Nem ferrando!
_Sua... – Sebastian preferiu não terminar- O que você acha que...
_Está errada... Melony-chan... – a garota interrompeu, com dificuldade.
Olhamos os dois surpresos para ela, que parou de se mexer entre as mãos do arrancar e olhava para baixo, parecia fraca.
_Esse coelhinho... O nome dela é Atashi... Que dizer eu... Por isso posso entendê-la.
Ela tossiu e continuou:
_É doloroso não é? É por causa da dor que você a está procurando não é? A sua... Liberdade... A sua felicidade... Você sempre procurou alguém diferente que pudesse amá-la pelas coisas que você pode e não pode fazer... Pelo que você é... Sempre vagando... Igual a Atashi... Meu irmão sempre lia para mim a história dela... - ela sorriu um sorriso meio triste, enquanto eu a olhava, paralisada – É triste não é?... Estar com alguém sabendo que não se pode fazer nada por essa pessoa... Mas... A felicidade só existe com as pessoas que você ama Melony... Ela aparece para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas... Mesmo que seja doloroso... Mesmo que nosso coração seja ferido... Queremos estar com aquelas pessoas... Eu... – seu corpo começou a tremer enquanto seus olhos marejaram – Eu quero que você fique comigo Melony... Eu nunca pensei em você como algo que eu fosse descartar... Não quero você como minha propriedade... Quero você como minha amiga! – e olhou para mim, num sorriso triste inundado de lágrimas.
“A...mi...ga....”
Eu já vira aquela palavra tantas vezes nos livros... Mas nunca nenhuma delas me fez um impacto tão grande como daquela vez.
“Por que ela queria ser minha amiga? Eu sempre a tratava mal, e sempre a odiei, ela sabia disso. Mas... Mesmo assim... Ela queria ser minha amiga? Por que?”
Eu nunca tinha pensado daquele jeito.
“Ser livre é ser feliz? E só é feliz quem tem amigos?”
Eu estava confusa, minha cabeça pendeu enquanto pensei:
“Essa pessoa... Entende...
Essa pessoa é... Especial...
Então, se eu perdê-la, perderei também minha liberdade?”
***
Enjoy~~






T-T
ResponderExcluirTadinha da Yue....
Mas achei lindo o final...e a semelhança com Chobbits *-*
Depois continuo lendo
Bjs