
De todas as minhas vagas memórias, o primeiro dia em que o meu irmão foi para aquele colégio, foi um dia inesquecível, me lembro muito bem de cada detalhe como se fosse ontem.
Matsui saiu do carro da Mizuki-san, uma velha amiga nossa, que de velha não tinha nada: Uma mulherona, cabelos longos, um super corpo e super peitos. Ela toda em si era atraente. Tanto que enquanto dirigia para levar Matsui-kun até o colégio, os caras que passavam pelo carro, tanto motoristas quanto pedestres, arregalavam os olhos e seguiam o “carrão” até a vista não poder mais. Matsui-kun ficava zangado com as voltas que a Mizuki-san fazia só para receber mais elogios e assovios. Ela sempre fazia isso. E riu com as reclamações dele.
Matsui-kun tinha dezesseis anos e eu seis. Ele estava saindo do ensino fundamental e entrando no ensino médio. Para mim, aquilo era assustador, para ele era só mais um degrau a subir.
_Então tchau! – disse Matsui com um sorriso, encostando a porta do carro e virando-se para sair.
Então, vendo meu irmão se afastar; senti um aperto no coração e me senti muito, muito triste.
Empurrei a porta e saí do carro quando gritei:
_ Matsui! Matsui! Não vá!
Então percebi as pessoas ao nosso redor se virando curiosas, para saber o motivo dos gritos e por um instante me senti com medo do Matsui ficar bravo comigo pelo escândalo. Mas ele não era assim. Ele virou-se para mim, abaixou-se e estendeu os braços sorrindo.
Corri para ele, meus olhos brilhando de esperança, meu rosto corado de felicidade, como sempre acontecia quando eu ficava feliz. Ele me abraçou forte e depois me afastou de si com delicadeza e disse:
_Yue-chan. Eu tenho que ir para a aula agora. Eu preciso estudar ou jamais poderei trabalhar e cuidar de você eu mesmo. Nós não podemos depender da Mizuki-san para sempre.
_Eu sei, mas não quero que você me deixe...
Algumas garotas se interessaram na cena.
Matsui riu e afagou minha cabeça, carinhoso.
_Yue-chan, eu ficarei com você para sempre, mas para que isso aconteça você tem que me deixar estudar.
Olhei para ele, com os olhos marejados.
_Ei... – disse ele me olhando com os olhos apreensivos – não faça essa carinha triste, apesar de todas as carinhas da Yue-chan serem lindas, eu prefiro mais a sua carinha feliz.
Com o sorriso que ele deu não tinha como não ficar feliz.
_Vamos nós dois nos esforçar muito hoje, certo?
Meio relutante, assenti. Percebendo que eu ainda hesitava, ele piscou para mim, cochichando:
_Depois da aula vou passar naquela loja de doces que a gente sempre vai e vou comprar um montão para você!
As lágrimas sumiram e meus olhos brilharam.
Ele deu uma risada, vendo que a proposta surtira efeito.
_Ei, Matsui-kun!- Mizuki gritou do carro – Não faça essas promessas ou terei de agüentar o dobro de uma garotinha querendo que você volte logo para casa.
Matsui sorri, se desculpando. Depois olha para mim e diz:
_Ouça Yue, não dê trabalho para a Mizuki-san certo? Comporte-se bem.
_Esta bem... – eu disse, querendo chorar de novo.
_Ei, ei, meu beijinho da sorte! – e virou o rosto para mim enquanto apontava para a própria bochecha.
Estiquei meus pés o máximo que pude e beijei seu rosto. Ele usava um perfume tão bom que dava vontade de ficar eternamente ali, beijando-o.
Ele sorriu um sorriso bem grande e se levantou, dizendo:
_Yosh! Agora posso estudar direito! – curvou-se para me desejar – Eu espero que minha linda princesinha tenha um ótimo dia hoje!
Era tanto carinho que não pude evitar sorrir e concordar. Entrei no carro enquanto ouvia os comentários:
“Ai! Ele não é uma gracinha?”
“Que coisa mais fofa, eu quero um irmão desses!”
“Que gatinho mais gentil, eu também quero!”
Não entendi muito bem o que elas queriam dizer, mas fiquei com ciúme do meu irmãozão.
Eu acenei para ele até ele entrar no colégio e o carro virar a rua.
Lembro que esperar Matsui voltar para casa nesse dia foi um martírio para mim. Antes ele estudava de manhã, e quando eu acordava, ele já estava em casa.
E realmente, Mizuki-san teve que suportar o dobro da minha impaciência e ansiedade pelo retorno dele. Eu estava com medo dele não voltar, de alguma maneira, ou de alguma coisa acontecer no colégio que ele voltasse diferente do normal.
Mas Matsui voltou e estava com o mesmo sorriso de sempre, e quando ele me abraçou todos os meus medos e receios desapareceram.
_Ah! Bem vindo de volta Matsui-kun! Como foi o primeiro dia?
_Obrigado Mizuki-san! Foi ótimo!- disse ele corando de felicidade, como eu corava.
_Ah! Não posso me esquecer!- Pegou a bolsa – Como prometido, os doces!
_Oba! – gritei feliz.
Ele soltou uma risada enquanto puxava o zíper da bolsa. Então a bolsa sumiu das mãos dele e foi parar misteriosamente nas mãos curiosas de Mizuki-san.
_Han? O que é isso que eu vi aqui dentro em? – disse escancarando um sorriso.
Matsui corou e gritou:
_Ah! Mi-Mizuki-san! Isso é meu! Devolva-me!
Mizuki ficou interessadíssima na reação dele, o que a fez ficar mais incentivada a olhar dentro da bolsa e confirmar as suspeitas com uma risada alta.
_ Matsui-kun! Que gracinha! No primeiro dia de aula você já arrasa corações de tantas garotas! Olhe só quantas cartinhas de amor!
Matsui estava quase fervendo de vergonha quando sapateou e gritou, estendendo a mão, tentando pegar a bolsa, mas em vão. Uma vez que alguma coisa nas garras de Mizuki, nada era capaz de tirá-la de lá, assim como nós caímos e nunca mais conseguimos sair. E isso era bom, logicamente. Mas Matsui não gostava nem um pouco da idéia de compartilhar pertences pessoais com ela.
_Mizuki-san! Devolva-me!
Mizuki continuava dando risadas altas enquanto rodeava fugindo das mãos de Matsui, divertindo-se ainda mais com o constrangimento do pobre. Eu só olhava, sem entender.
Mizuki abriu a bolsa, pegando as cartas.
_Olhe só! Uma, duas, três... Seis... Oito cartas! Céus! Você é realmente popular, Maaatsuuuiiii-kuuuun! – Ela disse, enfatizando o kun, o que o deixava ainda mais envergonhado.
Finalmente conseguindo pegar as cartas e a bolsa, Matsui faz uma careta, mostrando a língua para ela e segura a bolsa firme entre os braços.
_Mizuki, você é muito curiosa! – disse ele tentando fazer uma cara de nervoso, o que claramente não conseguia.
A tentativa de Matsui de fazê-la recuar com a cara feia; teve efeito contrário. Ela colocou as mãos na boca e disse estupefata:
_Ah! Que fofo! Acho que vou desmaiar! Matsui-kun fazendo cara de nervoso... Que fofooo! – e pulou para abraçá-lo, mas obviamente o peso do corpo dela fez com que os dois caíssem no chão. Enquanto ela o abraçava freneticamente, ele tentava desesperadamente sair de baixo dela.
_Mizuki-san! O que está fazendo? Você está me sufocando com... Esses... Esses... –corou feito uma panela de pressão- p-p-peitos! Mizukiiii!
Ela só continuava a dar risadas altas, achando a coisa mais engraçada do mundo. Então se sustentou em um braço só, chegando seu rosto mais perto do dele, fazendo-o ter uma leve parada cardíaca, de apavoramento.
_Então, Matsui-kun, o que pretende fazer com todas essas cartas em?
_C-Como assim o que pretendo fazer com todas essas cartas? Vou guardá-las, é lógico.
Mizuki olhou para ele surpresa, desapoiando o braço:
_Ah! Matsui-kun, isso está errado! Você deveria escolher qual das cartas você mais gostou e ir atrás da garota que a escreveu... – e parou para pensar por um segundo, continuando – Mas pensando bem, isso seria muito certinho! Então você deve ir atrás de todas! – E soltou uma gargalhada.
Matsui olhou para ela cético, e depois disse:
_Mizuki-san, eu não vou fazer isso!
_Por que não? – riu ela- eu também fazia isso quando estava no colégio- segredou ela.
_Não me compare com você!
_Ora, quanta crueldade! – disse ela se apoiando no braço novamente, enquanto ele se remexia incansavelmente tentando se livrar dela.
_Eu não tenho a capacidade de escolher uma das garotas e magoar os sentimentos das outras!
Mizuki a boca de felicidade.
_ Matsui-kuuuun! Você merece um beijo!
_Uaaaaa! – Não chegue assim perto de mim sua peituda pervertida!
Mizuki fingiu estar magoada, fazendo drama:
_Ah! Fui rejeitada! Acho que vou chorar!
_EU é que devia estar chorando aqui! – reclama ele se remexendo ainda mais.
Ela ria muito. Mas eu não estava feliz.
_A culpa é minha? Matsui-kun está bravo comigo?
Os dois pararam de se mexer e olharam para mim.
_Han? O que está dizendo Yue-chan? – perguntou Mizuki perplexa.
_Não é isso Yue. Eu não estou bravo com você – e virou-se com uma careta para Mizuki – estou bravo com os pais da Mizuki que não ensinaram pra ela que mexer nas cartas dos outros é falta de educação!
Ela riu de novo e eu perguntei:
_Então você não vai embora?
_O que? – Foi a vez de Matsui perguntar- O que está dizendo Yue? De jeito nenhum. – disse ele, finalmente conseguindo escapar de Mizuki com a brecha que ela deu ao prestar atenção em mim, chegando perto de mim e se abaixando – Não irei a lugar algum. Meu lugar é aqui com você, e aonde quer que você estiver.
Os doces não eram tão doces quanto suas palavras.
Nenhum doce no mundo era.
Fim
Yue... YUE!
“Eu o ouvi gritar meu nome e quando virei minha cabeça para olhar, vi um carro vindo em minha direção.
Naquele segundo, tudo se misturou.
Medo, pavor e o choque que paralisou meu corpo. Por mais que eu tentasse não conseguia me mexer e por mais que tentasse não conseguia para de pensar outra coisa a não ser:
“Eu vou morrer. E Matsui me perderá para sempre.”
Então no mesmo segundo, vi uma mão se estender perto do meu rosto, e num pulo, um corpo quente tapou a visão do carro descontrolado à minha frente.
Naquele segundo tudo se misturou. Quando Matsui me abraçava, todos os meus medos e receios desvaneciam em volta de seus braços. Nós nos misturávamos como se fossemos um só.
Todo o carinho que ele tinha tomava o lugar dos meus medos.
Era uma troca injusta. Mas ele nunca se importou.
Sim, tudo se misturou naquele segundo...
Seus braços me apertaram junto a ele, se misturando com meu corpo paralisado. As batidas descompassadas do meu coração se misturaram com as dele, sempre calmas, mesmo agora.
Seus dedos se misturaram nos meus cabelos enquanto ele puxava minha cabeça para mais perto do seu peito. Nossos sentimentos se misturaram.
E a voz dele, a mais linda melodia que eu já ouvira na vida, e a que eu mais amava, se misturou com o som do carro freando, mas ainda pude ouvi-lo quando ele sussurrou de leve ao meu ouvido:
_Eu te amo...
Então tudo a minha volta desapareceu.
Nada mais importava, ele estava ali, comigo, eu não tinha nada do que ter medo.
Enquanto aqueles braços me envolvessem eu jamais sentiria medo.
Quando abri novamente meus olhos, ele estava ao meu lado, não me apertava forte, mas mantinha os braços ao meu redor e estava com o rosto perto do meu, os olhos fechados.
Sempre achei que Matsui tinha um rosto tão calmo quando dormia... Ele parecia... Feliz.
_ Matsui? – minha voz estava rouca, embargada em minha garganta.
Estendi a mão para tocar levemente seu rosto com carinho para acordá-lo, como sempre o acordei quando era bem pequenininha e ele dormia ao meu lado, por que eu tinha medo de dormir e quando eu acordasse, ele não estivesse mais lá. Mas ele sempre estava.
Seu rosto pálido estava frio. E o frio percorreu meus dedos até penetrar profundamente em meu coração.
“You don’t see me, but I know you’re all I need.”
Nós estávamos juntos. Mas era como se eu estivesse sozinha.
“I heard a sound... The sound of my own heart beat...”
Eu senti meu medo de menina voltar se alastrando em todo meu corpo.
“My heart is beating, all alone...”
Levantei-me e segurei seu rosto, ainda esperançosa:
_ Matsui! Matsui! Acorde onii-san! Matsui-kun! Matsui-kun!
Meu medo chegou até meus olhos quando vi escorrendo ao seu lado, junto com sua vida, um líquido de cor púrpura. O sangue da pessoa que eu mais amava no mundo.
“I couldn’t say, there so much more to say...”
Meu medo transformou-se em desespero.
Eu gritei seu nome, mas ele não acordou.
Eu sacudi seu corpo, mas ele não acordou.
“I wish you call my name... Take my hand, but I guess, my heart will break again…”
Meus gritos se misturaram com as lágrimas incessantes e o desespero com minha inconformação.
Não ele. Não Matsui. De todas as pessoas do mundo, ele era a única especial para mim. A única que não podia... Morrer.
A multidão que nos cercava cada vez mais; assistia a cena que se passava.
Mas éramos só uma garota gritando e balançando um corpo estendido no chão, para deleite de mórbidos curiosos.
Eu estava desesperadamente tentando fazer nossos sentimentos se misturarem de novo.
Mas ele não estava mais ali...
Pela primeira vez ao abrir meus olhos, ele não estava mais ali.
Antes que tudo, tudo o mais desaparecesse, um grito desesperado e aterrorizante passou pela minha garganta..
“Every time I say... I Love You...”
Levantei-me e fui lavar o rosto na pia do banheiro.
Não quis olhar para o espelho.
Quantas incontáveis vezes eu já tivera aquele sonho?
_Matsui... -susurrei; meu cabelo caindo no rosto, meu corpo tremendo.
Ele sempre dizia que a pessoa que morre perde todas as oportunidades que tinha na vida, mas ele não sabia que quem fica vivo é quem mais perde...




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Arigato Gosaimasu~~
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